Ficou acordado, no escuro, e refletiu até que ponto se importava com o que havia acontecido, o quanto sua súbita infelicidade não passava de vaidade ferida e se, no fundo, por uma questão de temperamento, ele não seria inapto para levar adiante um romance.
— 119, Este lado do paraíso, F. Scott Fitzgerald
O Quereres
Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock’n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
Caetano Veloso
Nuvem Negra
Não adianta me ver sorrir, espelho meu
Meu riso é seu
E eu estou ilhada
Hoje não ligo a TV nem mesmo pra ver o Jô
Não vou sair, se ligarem não estou
À manhã que vem nem bom dia eu vou dar
Se chegar alguém
A me pedir um favor eu não sei
Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo
Passa nuvem negra, larga o dia
E vê se leva o mal que me arrasou
Pra que não faça sofrer mais ninguém
Esse amor que é raro
E é preciso
Pra nos levantar me derrubou
Não sabe parar de crescer e doer
Djavan
Solidão, solidão… Era só o que havia em torno de mim, dentro em mim. Era como se eu morasse numa cidade que pouco a pouco, fosse ficando deserta. Algum tempo mais, não haveria ninguém para regular sinais luminosos nas esquinas, dar corda aos relógios, velocidade aos bondes, carne, pão e fruta às casas. De resto, para que bondes, relógios?…
— Carlos Drummond de Andrade
Absolute Beginners
Eu não tenho muito para oferecer
Não há muito para levar
Eu sou um principiante absoluto
E eu estou absolutamente são
Contanto que estejamos juntos
O resto pode ir para o inferno
Eu absolutamente amo você
Mas nós somos principiantes absolutos
Com olhos completamente abertos
Mas igualmente nervosos
Se nossa canção de amor
Pudesse voar acima das montanhas
Pudesse rir do oceano
Apenas como nos filmes
Não haveria nenhuma razão
Para sentir todos os tempos difíceis
Para impor as linhas duras
Isto é absolutamente verdadeiro
Nada mais poderia acontecer
Nada que nós não pudéssemos sacudir
Oh, nós somos principiantes absolutos
Com nada mais a arriscar
Contanto que você ainda esteja sorrindo
Não há nada mais que eu precise
Eu absolutamente amo você
Mas nós somos principiantes absolutos
Mas se meu amor é seu amor
Nós teremos certeza do sucesso
Se nossa canção de amor
Pudesse voar acima das montanhas
Velejar sob as inquietações
Apenas como nos filmes
Não haveria nenhuma razão
Para sentir todos os tempos difíceis
Para impor as linhas duras
Isto é absolutamente verdadeiro
David Bowie
O Amor
Talvez
Quem sabe
Um dia
Por uma alameda
Do zoológico
Ela também chegará
Ela que também
Amava os animais
Entrará sorridente
Assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita
Que na certa
Eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não
Podemos amar na vida
Com o estrelar
Das noites inumeráveis
Ressuscita-me
Ainda
Que mais não seja
Porque sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando
Contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso
Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe
Minha vida
Para que não mais
Existam amores servis
Ressuscita-me
Para que ninguém mais
Tenha de sacrificar-se
Por uma casa
Um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme
E o pai
Seja pelo menos
O Universo
E a mãe
Seja no mínimo
A Terra
A Terra
A Terra
Caetano Veloso (baseado em poema de Vladimir Maiakovski)
Eu vou te contar
Eu vou te contar que você não me conhece
E eu tenho que gritar isso
Porque você está surdo e não me ouve
A sedução me escraviza a você
Ao fim de tudo você permanece comigo
Mas preso ao que eu criei e não amei
E não a mim
E quanto mais falo sobre a verdade inteira
Um abismo maior nos separa
Você não tem um nome e eu tenho
Você é rosto na multidão
E eu sou o centro das atenções
Mas há mentira na aparência do que eu sou
E há mentira na aparência do que você é
Porque eu não sou o meu nome
E você não é ninguém
O jogo perigoso que eu pratico aqui
Busca chegar no limite possível de aproximação
Através da aceitação da distância
Ou do reconhecimento dela
Entre eu e você
Existe a notícia que nos separa
Eu quero que você me veja nu
Eu me dispo da notícia
E a minha nudez parada
Me denuncia e te espelha
Eu me dilato
Tu me relatas
Eu nos acuso e confesso por nós
Assim me livro das palavras
Com a as quais você me veste.
Fauzi Arap
Tenda
Mesmo que nunca se aprenda
Tu me ensina a namorá
Que eu te ensino a fazê renda
Que apesar do céu, do carnaval
E do inferno dessa guerra
E da terra presa ao bem e ao mal
Reine paz na nossa tenda
De cetim o céu
De seda o chão
E as cem brisas que segredarão
Pelos mundos nossa lenda
Mesmo que nunca se aprenda
Eu te ensino a fazê renda
Que mais posso te ensinar
E eu que não porto outra prenda
Que só sei dar vida à trama vã
Rei das belezas fugazes
Tu que trazes drama à vida sã
Quem sabe isso ainda se estenda
Tu me ensina amor a namorá
E eu talvez te ensine a me ensinar
Teça-se assim a fazenda
E a nós dois tudo se renda
Caetano Veloso
Modinha Para Gabriela
Quando eu vim para esse mundo
Eu não atinava em nada
Hoje eu sou Gabriela
Gabriela ê meus camaradas
Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim
Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela
Quem me batizou quem me nomeou
Pouco me importou é assim que eu sou
Gabriela sempre Gabriela
Quando eu vim para esse mundo
Eu não atinava em nada
Hoje eu sou Gabriela
Gabriela ê meus camaradas
Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim
Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela
Quem me batizou quem me nomeou
Pouco me importou é assim que eu sou
Gabriela sempre Gabriela
Gabriela sempre Gabriela
Eu nasci assim eu cresci assim e sou mesmo sim
Vou ser sempre assim Gabriela, sempre Gabriela
Eu sou sempre igual não desejo o mal
Amo o natural etc e tal
Dorival Caymmi
That’s How People Grow Up
Eu estava desperdiçando meu tempo
Tentando me apaixonar
A decepção veio até mim e
Me chutou
Me encheu de hematomas e
Me feriu
Mas é assim que as pessoas crescem
É assim que as pessoas crescem
Eu estava desperdiçando meu tempo
Procurando por amor
Alguém deve olhar para mim
E ver que há alguém dos seus sonhos
Eu estava desperdiçando meu tempo
Esperando por amor
Pelo amor que nunca vem
De alguém que não existe
É assim que as pessoas crescem
É assim que as pessoas crescem
Me deixe viver
Antes que eu morra
Oh, eu não, a mim não
Eu estava desperdiçando minha vida
Pensando o tempo todo sobre mim mesmo
Alguém em seu leito de morte disse:
“Existem outros infortúnios também”
Eu estava dirigindo meu carro
Eu bati e quebrei minha coluna
Então, sim, há coisas piores na vida
Do que nunca ser o querido de alguém
É assim que as pessoas crescem
É assim que as pessoas crescem
Quanto a mim, tudo bem
Por enquanto, de qualquer maneira
Morrissey
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