se contarmos todas as palavras que trocamos
daria para escrever um bom romance
eu nem te conhecia e contei meus absurdos
tu nem me conhecia e contou teus muitos planos
(…)
se contarmos todos os silêncios que trocamos
daria para povoar um edifício
eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
(…)
mas o amor exige beijos e abraços
e não reconheceu o nosso encanto
sabe que o meu gostar de você chegou a ser amor, pois eu me comovia vendo você (…) meu deus, como você me doía de vez em quando. eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça. então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calado um tempo enorme só olhando você, sem dizer nada, só olhando e pensando: meu deus, mas como você me dói de vez em quando.
— caio fernando abreu (via psychodelic) (via heydreamer) (via bluegrapes) (via pafurada)
All is full of love
Tudo está cheio de amor
Só você não está recebendo
Tudo está cheio de amor
Seu telefone está fora do gancho
Tudo está cheio de amor
Suas portas estão todas fechadas
Tudo está cheio de amor!
Bjork
Dança da Solidão
Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Camélia ficou viúva, Joana se apaixonou
Maria tentou a morte, por causa do seu amor
Meu pai sempre me dizia, meu filho tome cuidado
Quando eu penso no futuro, não esqueço o meu passado
Desilusão, desilusão
Danço eu dança você
Na dança da solidão
Quando vem a madrugada, meu pensamento vagueia
Corro os dedos na viola, contemplando a lua cheia
Apesar de tudo existe, uma fonte de água pura
Quem beber daquela água não terá mais amargura
Paulinho da Viola
Lemon Incest
Incesto de limão
Incesto de limão
Eu te amo, amo, te amo mais que tudo
Ingênuo como uma tela de Nierdoi Sseaurou
Os teus beijos são tão doces
Incesto de limão
Incesto de limão
Eu te amo, amo, te amo mais que tudo
O amor que nós nunca vivemos juntos
É o mais belo, o mais violento
O mais puro, o mais inebriante
Desculpe, desculpe
Deliciosa criança
Minha carne e o meu sangue
Oh meu bebê, minha alma
Incesto de limão
Eu te amo, amo, te amo mais que tudo
Ingênuo como uma tela de Nierdoi Sseaurou
Os teus beijos são tão doces
Incesto de limão
Incesto de limão
Eu te amo, amo, te amo mais que tudo
O amor que nós nunca vivemos juntos
É o mais belo, o mais violento
O mais puro, o mais inebriante
Desculpe, desculpe
Deliciosa criança
Minha carne e o meu sangue
Oh meu bebê, minha alma
Incesto de limão
Incesto de limão
Gainsbourg
Amor
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
Paulo Leminski
sobre a exaustão da retina
já não me diz nada um pôr do sol em cancun
e um coqueiro em alto mar já vagou por protetores
de tela demais para me causar qualquer sensação
de bem-estar; os casais parisienses que habitam
calendários já não me dão sequer vontade
de ir a paris assim como não me comovem
mais as crianças de sebastião salgado nem
a menina que foge do ataque do napalm
e que em breve estampará cangas e biquinis;
as imagens estão gastas e não há nenhuma
que erga pontes como a palavra que.
A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, Gregorio Duvivier
Sobre construir janelas (para Paulo Henriques Britto)
Erguer antes de tudo uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada
são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,
nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.
Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.
A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, Gregorio Duvivier
O meio de todas as coisas
entre o fim do começo e o começo
do fim toda coisa tem uma massa
inerte feito ponte pela qual
passamos distraídos – ou não:
os astecas sentiam chegar o exato
momento do meio da vida – o meio
do meio da vida, o momento em que
o que já vivemos é exatamente
igual ao que ainda não vivemos
– e nesse momento preciso o mais
comum dos astecas sentia uma súbita
e inexplicável vontade de tomar um trem
mas como ainda não o tinham inventado
ele acabava por entristecer-se
(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)
A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, Gregorio Duvivier